Entrevista – Teatro da Garagem



Entrevista – Teatro da Garagem

 

Teatro da Garagem celebrou 30 anos de atividade em 2019. Que balanço fazem?

O Teatro da Garagem (TG) reside no Teatro Taborda, desde 2005/6, a convite da EGEAC e CML, tem o estatuto de utilidade pública e completou 33 anos de atividade regular em 2022. Tem dedicado o seu trabalho à pesquisa e experimentação, através de escrita e encenação original. O TG iniciou a sua atividade numa garagem dos subúrbios de Lisboa, uma zona híbrida, de mistura de paisagens e referências, que determinou o trabalho de escrita e encenação do seu dramaturgo, encenador e diretor artístico, Carlos J. Pessoa. Esta vocação peculiar, caracteriza o percurso do TG até hoje. O mesmo foi reconhecido e premiado, nacional e internacionalmente, pelo público, pela crítica especializada, pelas instituições culturais e pelas estruturas governamentais, o que conferiu ao projeto do TG, solidez e dimensão cultural consolidada.

Durante estes anos de atividade, o TG organizou o seu trabalho artístico através de ciclos de atividade, que corresponderam a momentos criativos específicos e às transformações da história, sempre numa perspetiva de diálogo com todas as instituições e parceiros, defendendo a atividade teatral como serviço público universal e acessível aos mais desfavorecidos.

Do historial do TG constam mais de 100 criações, na sua maioria a partir de textos originais (a publicação das obras completas já começou a ser feita pela Companhia das Ilhas e continuará nos próximos anos). Neste novo ciclo, designado – Com os pés assentes na Terra, acrescenta à sua atividade matricial, o trabalho sobre os textos clássicos, o convite a novos autores, e o reforço do seu serviço educativo, no alargamento da sua atividade no território nacional e internacional. Duas questões nucleares afloram a atividade do TG: a escuta e a expressão. A escuta parte da urgência de escutar o mundo, o outro, na convulsão histórica que vivemos, na consideração dos múltiplos problemas que a humanidade enfrenta; deve o TG servir de lugar de escuta pública e cívica, no esforço de estabelecer pontes e convergências, no respeito pela singularidade e pela(s) dinâmicas da(s) comunidade(s). Se a expressão é, por um lado, a manifestação livre, artística, deste esforço de escuta, também resulta de urgências intangíveis, que lhe determinam um cunho e uma vitalidade. A arte, a expressão, não deve, por isso, ser pensada na subordinação a um programa ideológico ou político, mas antes fazer-se espelho da dinâmica complexa, e contraditória, do mundo. A escuta ocorre, também, através do diálogo entre o saber consolidado dos elementos mais antigos do TG, e a vasta galeria de novos colaboradores; o passado do TG, pressupõe um presente dinâmico, evolutivo e fértil. A expressão manifesta-se, por sua vez, na diversificação das atividades previstas, e na sua mútua influência e interdependência; assim, como na colaboração com outros criadores, no confronto com diferentes metodologias. Por último está presente nos movimentos de escuta e de expressão, desencadeados pelo TG, a premência digital e ecológica, que têm que estar associadas a uma prática artística responsável, participativa e inclusiva.

 

De que forma é que a pandemia condicionou a programação e dinâmica do Teatro?

A pandemia trouxe alterações estruturais ao Teatro da Garagem, tanto à equipa de trabalho que sofreu uma grande renovação, como ao seu método criativo, provocando grandes mudanças na organização e planeamento de trabalhos. Alterações que permitiram incrementar a ligação com o público regular da companhia, fixar novas formas do fazer e comunicar, mas acima de tudo que, mantendo os valores criativos basilares da sua estrutura, permitem uma maior adaptação aos tempos do presente e suas particularidades. Todas as alterações apareceram de uma forma quase intuitiva e natural.

 

Todos os fins de semana, há uma nova produção em cena. Quais são os critérios programáticos?

Os eixos de PROGRAMAÇÃO decorrem da cultura “garagiana” que se afirma no reconhecimento de vocações experimentais e pedagógicas, refletindo o ecletismo que estimula o trabalho artístico. Do plano de acolhimentos fazem parte festivais e criadores reconhecidos, com os quais o TG tem uma relação continuada – FIMFA, FESTIVAL CUMPLICIDADES, CENDREV, Seiva Trupe, etc. – e criadores emergentes integrados no Ciclo TRY BETTER, FAIL BETTER – porventura o projeto mais relevante da Programação, apresentando projetos originais que provêm de um desafio / processo colaborativo entre criadores e estruturas que incentiva a nova criação artística.

 

É dito que “o Teatro da Garagem organizou o seu trabalho através de ciclos diferentes”. Que ciclo é o atual?

Considerando os desafios políticos, ambientais e civilizacionais contemporâneos, o Teatro da Garagem (TG) propõe COM OS PÉS ASSENTES NA TERRA, como conceito orientador do seu projeto 2023-26. TERRA como planeta, na sua vulnerabilidade e imprevisibilidade, mas também como lugar natural da raiz, o espaço, por excelência, da cultura. PÉS, no pressuposto da caminhada, da busca de um lugar e do equilíbrio. COM OS PÉS ASSENTES NA TERRA implica uma reflexão e uma direção clara:

a salvaguarda das pessoas, na sua diversidade cultural e étnica, num mundo plural e sustentável; e ambiciosa na preservação de valores democráticos, de escuta e partilha. Um conceito que impõe o contributo do Teatro como fonte de aprendizagem e renovação, de memória e de inovação. Daí a opção de trabalhar, simultaneamente, textos clássicos e textos originais, irradiando orientações para os domínios de atividade.

 

Além da programação já conhecida, que novidades podem adiantar?

Pensando na dinamização do espaço do Teatro Taborda e seguindo um plano programático adaptado ao público local e com vista à captação de novos públicos, o Teatro da Garagem, inicia em 2022 acolhimentos de concertos de música, atividade que não se dinamizou no espaço nos últimos 10 anos e que agora pretendemos replantar.

 

A renovação de públicos, uma questão muito debatida ao longo dos tempos, é real ou continua a ser um nicho especializado aquele que acorre ao teatro?

Associadas à Criação, o TG implementará AÇÕES ESTRATÉGICAS DE MEDIAÇÃO junto de diversos públicos e comunidades, por via de parcerias com entidades do setor educativo e social. As BRIGADAS DA GARAGEM são o formato mais evidente destas ações, cuja portabilidade física permite consolidar uma política de descentralização e de promoção da acessibilidade cultural, transportando a atividade do TG e dos seus espetáculos adaptados para lugares onde escasseiam hábitos e oferta culturais. Estas brigadas, no seu formato e conteúdos, constituem iniciativas novas, criadas e testa[1]das durante confinamentos e posterior prolongamento do ciclo de financiamento (2022).

 

Num quadro de democratização digital, o espaço da experimentação é mais diluído ou, pelo contrário, tornou-se mais fácil de distinguir e identificar?

O TG propõe-se continuar a aprofundar o seu trabalho no desenvolvimento de novas modalidades de acesso ao teatro, nomeadamente através da realização de objetos de Teatro Filmado, em parceria com a RTP palco, e outros parceiros, melhorando as suas competências técnicas e artísticas.

 

Em que consiste o projeto pedagógico?

Valorizar a dimensão educativa e de sensibilização para a cultura através de boas práticas de mediação de públicos é um objetivo que aprofunda a perceção da candidatura do TG enquanto parte de uma intervenção cultural mais ampla. COM OS PÉS ASSENTES NA TERRA valoriza de forma muito evidente a dimensão pedagógica e de sensibilização para a cultura através das inúmeras atividades de Formação e de Mediação, em projetos colaborativos com Escolas do Ensino Básico, Secundário e Superior, e de atividades paralelas à Criação que permitem aprofundar cruzamentos com outras áreas do conhecimento. As BRIGADAS DA GARAGEM, na sua diversidade de abordagens e conteúdos, os projetos com a UNIVERSIDADE SENIOR ou as ações formativas E-GARAGEM, promovem práticas colaborativas, bilaterais, focadas numa sensibilização profissional e rigorosa, percebendo e reconhecendo o conhecimento de cada público-alvo.

 

De que forma é que o Café da Garagem é envolvido na proposta do Teatro?

O projeto pensado para o Café da Garagem, tem vindo a adotar mecanismos que contribuem para atrair e regular a presença do público no espaço, bem como, com a alteração do seu target para o cliente a viver na cidade de Lisboa, para a promoção do Teatro Taborda, do Teatro da Garagem, num esforço continuado de dar a conhecer Lisboa aos seus moradores.

 

Podem consultar tudo o que se passa no Teatro da Garagem e comprar bilhetes em: https://www.seetickets.com/pt/promoter/teatro-da-garagem/4170

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