
O MVP da cultura
Kendrick Lamar venceu. Drake perdeu. Os títulos do Super Bowl são inapeláveis. Houve um vencedor claro e um derrotado a assistir em casa. O canadiano nem teve direito a perder por falta de comparência, simplesmente não foi convidado para a volta de consagração do arqui-rival que, por cortesia e desdém, não o deixou fora. Convidou-o para o bife do lombo e trinchou-o em postas de sangue.
Apesar dos apelos para deixar a hostilidade escalada ao longo de 2024, que resultou no maior confronto da história do rap desde o braço-de-ferro fatal para ambos entre Tupac e Notorious B.I.G., Kendrick Lamar não resistiu e aos dez minutos disparou o hino Not Like Us. Um single que partiu do choque de personalidades para unificar uma comunidade e arrastar uma cultura. “Quero tocar a canção favorita deles, mas sabem que eles adoram processar”, ironizou antes de fazer voo picado.
Dezenas de dançarinos tomaram conta do palco, entre eles a ex-tenista Serena Williams, envolvida numa antiga relação com Drake. Embora tenha deixado de fora a acusação de “pedófilo”, ouviu-se a multidão gritar “a minor”, uma espécie de trocadilho que insinua os alegados relacionamentos proibidos de Drake com menores.
O canadiano sempre negou, mas depois de largada a bomba era impossível controlar a explosão. Se dúvidas havia depois da rebentação de Not Like Us em 2024, e do vídeo estrondoso, o Super Bowl foi a estocada final. Uma volta vitoriosa do animal competitivo Kendrick Lamar, em nome próprio e da cultura pela qual vestiu a camisola no triunfal GNX.
Talvez este seja um bom momento para perguntar se esta batalha verbal entre dois egos é consequente, e se normalizar a violência através da linguagem é saudável. Kendrick ganhou e Drake perdeu. O quê exactamente? Prestígio? Credibilidade nos passeios de Compton e Toronto? Que conflito armado por rimas é este, e o que nos diz sobre a cultura hip-hop olhar para estas personagens como pugilistas no ringue? Provavelmente, ajuda a explicar por que razão se lutou tanto pela sobrevivência dentro do hip-hop e hoje a cultura está tão alienada das fracturas políticas enquanto discute medidas e quilates.
As dezenas de milhar que hão-de esgotar o Estádio do Restelo em julho não parecem estar disponíveis para as questōes existenciais que levaram Kendrick Lamar a querer fazer parte da história e contá-la pelos próprios olhos.
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