2025: o ano da irresolução

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2025: o ano da irresolução

 

E agora? Apetece começar 2025 pelo fim. Um ano interminável de desgaste, frustração e a sensação de que pouco fruto restará desta colheita. Pior: o eterno colete de salvação chamado música parece estar a afundar-se. Os acordos assinados entre a indústria e as plataformas de Inteligência Artificial já estão a provocar uma nova Revolução. A pertinência da música nova, o motor da evolução de toda a música popular, está ameaçada pelas ferramentas de criação baseadas em dados treinados. Isto a juntar a um momento político de instabilidade e ameaça, e a uma degradação das condiçōes materiais e, por arrasto, das relaçōes sociais, é um cocktail explosivo. Veremos as consequências mas é certo que vem aí uma nova era pós-streaming.

 

Não foi ano de metamorfoses ou inversão de correntes. O domínio avassalador da música pop, personificado em figuras como Sabrina Carpenter, Lady Gaga, Billie Eilish e, claro Taylor Swift – embora The Life of a Showgirl tenha resultado num pequeno fracasso, comparado a episódios anteriores, ou em fenómenos adolescentes e transcontinentais como Demon Hunters. Por falar na dispersão do império anglo-saxónico, o grande fenómeno do ano foi o estrondoso DeBÍ TiRAR MáS FOToS, de Bad Bunny. O álbum do porto-riquenho rompe com os padrōes do reggaeton, e soma-lhe ritmos tradicionais como a salsa e a cumbia. Afirma-se também como um gesto político de resistência ao Trumpismo. Recusou ir para a estrada nos EUA, embora se prepare para ser o protagonista do próximo Super Bowl.

 

De dentro para fora do mundo pop, Rosalia reencontrou a luz da arte contemporânea em…Lux, a grande pedrada no charco de 2025. Um disco de experiências e aventuras, desformatado da rigidez pop e das fórmulas mecânicas que vêm tornando a música, e não só pop, uma reprodução de si mesma com filtros diferentes de Instagram. A catalã recusou o caminho da evidência, sem perder o pé na pop como em La Perla. E em Memória, uma oferenda de Carminho, fez-se fadista de alma latina.

 

Se na pop houve actividade generosa e, sobretudo, números animadores, a incapacidade de inventar novas saídas foi gritante. No hip-hop, álbuns memoráveis de Clipse e Billy Woodz não contrariam uma curva decrescente acentuada do género, que em 2025 atingiu o seu pico mínimo de impacto – não necessariamente de reconhecimento ou valor artístico. Este é um teste à relevância do hip-hop que só a resistência dos seus actores às fórmulas e a fidelidade do meio podem resolver. Em Portugal, isso é gritante. Apesar da presença de rappers como Plutónio ou produtores como Mizzy Miles, chamar hip-hop a modelos de canção formatos para rádio e playlists de streaming é exagerado.

 

Da revelação dos Geese à retrotopia de FKA Twigs ao reencontro com as 4 Non Blondes, no mash-up viral com Nicki Minaj, houve de tudo menos grandes surpresas, à excepção de Rosalia. Em Portugal, respirou-se o ar dos tempos e a música de protesto teve palco em álbuns de A Garota Não, Mão Morta, Tres Tristes Tigres, e nas emergentes Lesma. O admirável mundo instrumental de Rafael Toral continuou a assombrar o banal.

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