Bad ou Bunny no Super Bowl?
Após o Super Bowl, Bad Bunny era a resposta universal ao ditatorialismo de Trump, a América multicultural ressuscitava e o mundo reencontrava a esperança perdida em 13 minutos de celebração cultural, activismo pop e arbustos com pernas.
O resto era história: 128 milhōes assistiram em directo (ainda assim, menos do que Kendrick Lamar no ano passado), o intervalo esmagou a final da NFL, e os números do artista mais ouvido em 2025 dispararam em flecha. O inquilino da Casa Branca não tardou a reagir. “Horrível, um dos piores da história” e “afronta à grandeza dos EUA”, foram os comentários que incendiaram ainda mais a performance do portoriquenho no Super Bowl. Os republicanos pedem multas e prisão devido à “depravação indescritível” das letras e da coreografia. Em causa, estão termos como “pénis” e “rabo”, que violam as regras da televisão em sinal aberto.
O intervalo do Super Bowl LX contou ainda com a participação musical de Lady Gaga e Ricky Martin, além das presenças de Pedro Pascal, Cardi B, Karol G e Jessica Alba, e foi integralmente interpretado em espanhol. No final ouviu-se uma única frase dita em inglês: “God bless America”. O espetáculo incluiu um desfile com as bandeiras de nações das Américas.
Na semana anterior, ao receber o Grammy de Melhor Álbum, criticou o ICE (Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos): “Antes de agradecer a Deus, vou dizer: fora ICE”. De repente, a música era apenas um rastilho político do anti-imperalismo e o estatuto de Deus pop de Bad Bunny (apesar do visual Zara) tinha emulado no líder da oposição global ao retrocesso civilizacional. Só que…
A tarja “só o amor é mais forte que o ódio” responde com simplicidade aos males da humanidade mas não resolve todos os problemas. E outros ângulos de análise, mais profundos e desinteressados do efeito imediato das redes sociais, se levantaram. E a “dissidência” de Bad Bunny foi escrutinada como “um circo” destituído de “atitude política ou rebeldia” por partir do mesmo sistema de valores económicos e políticos, ou seja a indústria, que contesta. E sobretudo por se inserir numa competição, a NFL, controlada por figuras ligadas aos ficheiros Epstein e financiada pelo Barclays, um conglomerado com um histórico de racismo sistémico. “A domesticação do protesto?”, perguntava-se no podcast Retrovisor do canal mexicano Chamuco. E agora Benito, como te vemos na fotografia?
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