O BPM da electrónica está a subir

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O BPM da electrónica está a subir

 

A história é conhecida. Uma cultura proibida de nicho produzida por comunidades marginalizadas e racializadas, erguida em espaços abandonados como armazéns, quer nos EUA, quer na Europa. Nos anos 80 e 90, pertencer a uma subcultura exigia compromisso emocional, sentido crítico musical e uma necessidade de transcendência, como bem explicou o documentário Paraíso, ao justificar politicamente a revolução cultural das raves dos anos 90 em Portugal com a juventude da democracia e a necessidade dos filhos do 25 de abril se libertarem da herança sofrida dos progenitores.

 

Embora tenha tentado preservar as suas raízes socioculturais, a electrónica, tal como o hip-hop, democratizou-se e atingiu uma maturidade geracional que a universaliza entre gerações, classes e plataformas. Surgiram novas visōes, irromperam outras geografias como a brasileira, a latina e as diferentes áfricas, e sobretudo perdeu a exclusividade que festivais como Tomorrowland ou Burning Man – muito diferentes entre si -, ou a presença de nomes cimeiros em festivais de pop/rock já anteviam.

 

Nos últimos anos, tem-se assistido a uma profileração de eventos de música electrónica em que a imagem e a comunicação são tão valorizados como a música. Inspirados por celebraçōes como o Boiler Room, eventos como o Brunch Elektronik, The Yard ou No Art Lisbon chamam grandes nomes como Charlotte De Witte, Amelie Lens, Black Coffee ou Solomun para atrair o público para uma experiência “hedonista” e “transformadora” – adjectivos frequentemente usados – em que o BPM acelerado e todos rituais associados ao corpo e à mente são lubrificados e direcionados para outras áreas comerciais. Daí estes eventos se diferenciarem da cultura de clubes, de maior ou menor dimensão. E também por isso, e por factores como a gentrificação, a cena electrónica subterrânea enfrenta grandes dificuldades de sobrevivência por toda a Europa.

 

O fascínio por estas festas não vem do universalismo mediático mas da capacidade de, através do marketing, se projectar uma imagem de singularidade, genética na cultura electrónica, mesclada com a espetacularidade de fogos de artifício, o culto do corpo e da roupa, a fisicalidade da dança e a projecção nas redes sociais. Entre passagens, vozes cristalinas e teclados brilhantes, a música segue dentro de momentos.

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