By Davide: De onde vimos e para onde vamos
A previsão concretizou. 2025 foi o ano em que a Inteligência Artificial se banalizou como objecto útil. Não que ela não estivesse já presente, por exemplo em chatbots ou sistemas digitais, mas nunca como nos últimos doze meses se usou a IA como ferramenta constante de resolução de problemas.
Na música, os efeitos já se notam. As tabelas de streaming foram invadidas por cançōes fictícias como Predador de Pereca, uma combinação do funk estilo de Tim Maia com o funk favela de MC Jhey, Chupa Xoxota e Popotão Grandão. Todas têm o selo da Blow Records, liderada pelo brasileiro Raul Vinicius. Não necessariamente a assinatura, uma vez que os três singles foram gerados por IA, sem grande contestação do público ou da indústria.
Já a aventura dos Velvet Sundown foi mais curta. Em junho, os dois álbuns Floating On Echoes e Dust And Silence simularam um sonho nostálgico americano. Inicialmente, o projecto foi assumido como uma criação conceptual em laboratório, mas o recurso a IA foi negado. Quando uma fonte próxima da “banda” assumiu à Fader a utilização da tecnologia Suno, caíram os parentes na lama e a humanidade do projecto foi severamente perturbada.
Antecipando a ultrapassagem da inteligência humana, as multinacionais Sony, Universal e Warner assinaram um acordo de licenciamento com a startup de AI Klay, que se propōe a promover o potencial tecnológico garantindo preservar “artistas, compositores e detentores de direitos”. A plataforma está a trabalhar numa ferramenta interactiva treinada a partir de música licenciada [pelas três editoras] que promete impulsionar a criatividade humana em vez de a substituir. Estarão as três gigantes a defender os artistas ou a defender-se a si mesmas?
O acordo assinado entre a Warner e o Suno, depois de uma batalha judicial, parece ser bastante claro na resposta. A Warner fechou contrato com a plataforma para criação de música com recurso a IA, já depois de ter selado um acordo semelhante com a Udio.
A parceria põe fim a um litígio de dois anos e representa, em português corrente, um “se não podes vencê-los, junta-te a eles”. A Suno pagará à Warner para usar o catálogo da editora no treino de modelos, além de permitir que vozes e identidades dos artistas representados sejam replicadas.
Esta sucessão de entendimentos resulta de uma da repetição da ordem conhecida. Primeiro criminaliza-se o inimigo para o enfraquecer, depois negoceia-se um acordo, e por fim retira-se o sumo. Com uma literacia digital inexistente e a subordinação da ética aos números, só a regulação pode equilibrar o uso da IA como ferramenta e a justa remuneração das fontes [procuradas]. Em tese, a importância da identidade autoral pode crescer, mas só para uma minoria esclarecida, que não espelha a população digital.
2026 será de reflexão constante mas só a prática pode responder a uma balança desequilibrada entre recursos humanos e factores tecnológicos.
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