Com uma viagem na palma da mão
Jorge Palma partiu e há quem tenha ficado sem palavras, curvado perante a grandeza gentil e despretensiosa da sua música. Se há argamassa que nunca lhe faltou, foram…palavras.
Para cada torção da vida, há uma canção de Jorge Palma. Um “tira a mão do queixo, não penses nisso” ou um “nunca é tarde para se ter uma infância feliz” oferecidos como lume a não fumadores. Palma viveu para além dos limites, no excesso, mas também na naturalidade e modéstia. Recusou ser menino-prodígio do piano, frequentou o Conservatório, aprendendo com os mestres. Essa água desaguou em Só, apenas para voz e piano, ainda hoje lembrado como um dos seus álbuns magistrais.
Tocou no metro de Paris, para ganhar a vida, nos anos 70. Esse facto foi durante muito tempo usado como copo meio cheio, mas as grandes canções nunca deixaram de nos abraçar. Permaneceram e falam pela comoção colectiva. De Dá-me Lume a Frágil, de Encosta-te a Mim à insatisfeita Portugal, Portugal, electrificada pelo Palma’s Gang no álbum mítico gravado ao vivo no Johnny Guitar, Palma foi um exímio cronista da realidade, ao piano e à guitarra, acústica ou eléctrica.
Contemporâneo de Zeca Afonso, José Mário Branco e Sérgio Godinho, com quem dividiu palco e banda na digressão Juntos, nunca fez segredo do caos nem de uma certa irregularidade, avessa aos ditames da indústria. Depois de Só (1991), só voltaria a editar a solo em 2000 no homónimo É Proibido Fumar, renomado pela capa.
Viveu os últimos 25 anos intensamente com centenas de concertos, participações recorrentes e a passagem de testemunho para os filhos Vicente e Francisco, que o acompanharam até ao fim. Voltava sempre à sala cativada pelo piano, ali para os lados do Rato.
O voo nocturno levou-o mas a terra dos sonhos permanecerá como a sua morada. E anda sempre alguém por perto.
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