Concertos com História #21: Pearl Jam no Estádio do Restelo

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Concertos com História #21: Pearl Jam no Estádio do Restelo

 

A meio do concerto, os acordes aveludados de Last Kiss, original de 1962 de Wayne Cochran, interrompem a fúria torrencial do alinhamento dos Pearl Jam. O Estádio do Restelo vem abaixo. A canção ainda é recente no repertório mas é óbvio para toda a gente que se trata de um clássico instantâneo. O tempo não mente.

 

23 de maio de 2000. É apenas a segunda visita dos Pearl Jam a Portugal depois de uma estreia para os livros em 1996, no antigo Pavilhão de Cascais, na ressaca do aventureiro No Code. Em ambas as noites, são singles como Dissident, Daughter, Jeremy e Alive que deixam os fãs em delírio.

 

Quatro anos volvidos,os bilhetes esgotam no espaço de horas. A geração de 90 apanha-se agora em 2000. O concerto originalmente marcado para o Pavilhão Atlântico é transferido para o Estádio do Restelo. Algumas cenas de violência a anteceder não perturbam o ambiente. O início é electrizante com Evolution, Animal, Red Mosquito, Corduroy e Grievance. Eddie Vedder aproveita para agradecer as pranchas de surf e skate aos amigos portugueses, e fala de “coisas simples” antes de Light Years. Estes ainda são os Pearl Jam ansiosos de Ten e Vs. mas também já são os Pearl Jam refinados e desassombrados de Vitalogy, No Code e Yield, os dois últimos algo incompreendidos.

 

Binaural, o primeiro exercício de estúdio a contar com o ex-Soundgarden Matt Cameron, um velho conhecido de Seattle, na bateria, é editado uma semana antes, e entra para o primeiro lugar da tabela de álbuns. O MP3 já rouba vendas às lojas mas os fãs dos Pearl Jam não os deixam cair nas garras do Napster. A atitude anti-comercial da banda é reiterada em gestos como dispensar vídeos, e campanhas promocionais dos discos ao mínimo indispensável, processar promotoras devido ao preço dos bilhetes, e dar concertos de duas horas e vinte. Tudo em nome da fidelidade e devoção.

 

Antes dos telemóveis, os isqueiros iluminam o novo single Nothing as it seems.  Ouvem-se Given To Fly, Faithful e Even Flow. Immortality, Black e Go levam o concerto até ao primeiro encore, onde se começam a ouvir os primeiros pedidos de Alive. O público chega a entoar o refrão, e Eddie Vedder responde: “Pois, essa é uma boa música, vocês cantam-na tão bem que já não temos de a tocar”, lê-se na reportagem do Público. A resposta é Elderly woman behind the counter in a small town mas depois “lá faz a vontade à multidão, e tocam um Alive que deve ter sido ouvido no Algarve”, escreve o jornal. Para o segundo encore, Yellow Ledbetter e adeus Portugal.

 

O concerto ficou gravado e deu origem ao primeiro lançamento da série oficial de bootlegs da digressão de 2000. No YouTube dos Pearl Jam, há um vídeo oficial de Animal. Um mês depois, a 30 de junho no festival de Roskilde, durante o concerto para mais de 50 mil pessoas, sob chuva e lama, houve um movimento em massa da multidão em direcção ao palco. Nove pessoas morreram esmagadas e sufocadas, um dos episódios mais trágicos da história do rock e da carreira da banda.

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