Entrada, Prato e Sobremesa

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Depois de dois anos de restrição, ainda havia um último obstáculo a superar: o calor. Por estar situado numa zona com elevado risco de incêndio, o Super Bock Super Rock foi obrigado a voltar à antiga casa. A Altice Arena, onde esteve de 2015 a 2018 vindo…do Meco. Um dos veteranos da era moderna dos festivais, quase a atingir a bonita marca dos trinta anos, é também o mais camaleónico e saltimbanco. O SBSR já conheceu diferentes casas, já foi itinerante, já teve apenas uma noite, fixou-se no Meco, mudou-se para Lisboa, regressou à Margem do Sul, e por necessidade, retorna ao Parque das Naçōes, subtraindo a abertura para se fixar nas três noites de concertos. Pôr de pé as estruturas necessárias para viabilizar o festival obrigou a um contra-relógio de última horas mas o festival vai mesmo para a frente.

O apelido Rock designa cada vez menos o género e cada vez mais uma atitude. A edição 2022 é paradigmática desse ideal pós-género em que muito mais do que os formatos, contam as identidades. Se observarmos os nomes maiores, apenas um se pode enquadrar no perfil de banda de guitarras. São os velhos conhecidos Foals, banda inglesa conhecida pela sua performance explosiva, com uma novidade na mala que dá pelo nome de Life Is Yours, o novo álbum. Mais dançável, físico e funky, evocativo do David Bowie de Let’s Dance e da palheta de Nile Rodgers. cúmplice determinante no single mais popular da carreira de Bowie. A diversidade reina nessa noite, a ùltima (sábado, dia 16), com o repetente Jamie xx a transformar o palco em pista, e antes dos Foals, os Capitão Fausto com o maestro Martim Sousa Tavares, o tropicalismo pan-africano de Mayra Andrade e a abrir o indie feliz dos Local Natives. No Palco EDP, situado na Sala Tejo, entram em cena Ganso, Declan McKenna, Son Lux e Woodkid. E no Palco Somersby, aquele em que o corpo determina a vontade há hip-hop português com Lhast, house melancólico com Tourist, um DJ set dos Foals e Claptone a fechar.

O histórico recente do Super Bock Super Rock é claro na aposta no hip-hop. Lá está, o rock como combustível, apesar de o motor ser outro. Depois de Kendrick Lamar, Travis Scott, Anderson.Paak e Migos, este ano a quota é preenchida pelos cabeças de cartaz A$ap Rocky (quinta, 14 de julho) e o polémico DaBaby (15 de julho), ambos recém-chegados do primeiro Rolling Loud europeu, na Praia da Rocha, em Portimão. Fazem companhia a Pretty Flacko na primeira noite os Boy Pablo, os bem conhecidos dos melómanos portugueses Metronomy e o quebra-coraçōes Leon Bridges, um soulman dos tempos modernos. A fechar, Flume e a herança do hip-hop instrumental na cultura do software. No palco EDP, Working Men’s Club, Hinds, Los Bitchos, e Sports Teams defendem o flanco esquerdo do festival. Já no Somersby, o mais dançável, David & Miguel abrem o baile com suor e fantasia, seguindo-se DJ sets de Jungle e Digitalism.

Na sexta-feira, o nome mais aguardado é provavelmente o de C. Tangana. O madrileno até já passou pelo Musicbox, com casa cheia, mas o reconhecimento global conquistado pelo álbum El Madrileño faz dele uma das grandes figuras da descolonização pop e a grande figura da música espanhola actual depois da ex-namorada Rosalia. Tangana não vem apenas dar um concerto a Lisboa, traz o espectáculo baseado no memorável Tiny Desk. Uma mesa farta de ingredientes e convidados, com direito a sobremesa. Uma grande salada de frutas que tem provocado reacçōes de espanto e delírio por onde tem sido servida.

A pop latina tem uma segunda embaixadora, a argentina Nathy Peluso, também ela uma figura em ascenção na globalização da nova pop latina – Peluso e Tangana puseram a igreja espanhola em chamas com o vídeo da bachata herege Ateo. Teremos a sorte de os ver juntos? Este concerto será no Palco EDP a fechar um dia com Baba Ali, Samuel Úria e Silva. No Palco Super Bock, depois de C. Tangana e DaBaby, há ainda Hot Chip. Antes, o palco é de Cosmo’s Midnight e Goldlink. No Palco Somersby, a entrada é feita nas ondas do mar de Capicua, seguindo-se Daft Funk, Rui Vargas e Sofi Tukker.

Durante os três dias, o Palco LG é inteiramente preenchido por música portuguesa emergente escolhida pela rádio SBSR. Na quinta-feira, com o novel Luís Fernandes, o Conjunto Cuca Monga e Fred; na sexta com Ecto Pluma, Pedro de Tróia, Classe Crua e Benji Price; por fim, no sábado com Metamito, Golden Slumbers, Lura e Filipe Karlsson.

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