Concertos com História #20: David Bowie no Super Bock Super Rock 1996
Em 1990, David Bowie integrou a longa fileira de artistas com estatuto de estádio ao actuar em Alvalade, ainda nos recessos do êxito de Let’s Dance, mas já numa acentuada curva descendente que a escolta musculada dos Tin Machine não resolveu.
Havia que dar um passo atrás e reinventar a carreira – arte de que se fez o maior de todos os mestres na cultura popular. Bowie não abdicou da iconografia mas repensou-a em função do presente. Primeiro, na banda sonora da série Buddah of Suburbia (1993) e depois ao vestir a pele do misterioso detective Nathan Adler no apocalíptico e claustrofóbico Outside, o primeiro reencontro com Brian Eno após os dias de Berlim, e um mergulho na neblina de Twin Peaks e dos Nine Inch Nails.
Em 1995, Outside marcou também um regresso de Bowie aos álbuns conceptuais. Foi aclamado pela crítica mas o tetris industrial inviabilizou à partida qualquer possibilidade de êxito comercial. Em Portugal, Outside foi directamente enviado para a geração X, ou seja o público que então colava os ouvidos dia e noite nos programas de autor da XFM e lia a imprensa especializada para se manter atento à imensidão de novos fenómenos que então emergiam, de Bristol aos pós-Seattle.
Há uma série de factos curiosos a envolver a data 23 de junho de 1996, quando Bowie encabeçou um então novato Super Bock Super Rock, ainda no Passeio Marítimo de Algés.
A selecção portuguesa enfrentava a República Checa com aspirações de triunfar no Euro 96. O famoso chapéu de Poborski, futuro extremo do Benfica, a Vitor Baía resolveu o jogo. Não foi só o futebol a contribuir para o fracasso de bilheteira. A metamorfose da pele de Bowie fê-lo demasiado progressista para os conservadores, mas a longevidade já o percepcionava como um clássico, ao lado de jovens feras como os Prodigy, a banda mais desejada desse festival depois de Firestarter ter alastrado um incêndio de grandes proporções.
Trinta anos depois, é quase absurdo pensar que a organização franqueou as portas e o concerto foi de entrada livre mas a decisão foi justificada pelo promotor Álvaro Covões, um novato na organização de festivais, com o marketing e a relação com o patrocinador. Ou seja, ter público era mais importante para o SBSR ser notícia do que manter as portas fechadas ao público e o ar aberto às moscas.
Num palco decorado com “manequins amarrados e embrulhados em lençóis”, a mistura de rock com maquinaria não deixou os clássicos de fora. Bowie revisitou velhas canções como Scary Monsters (and Super Creeps), Lust For Life (escrita com Iggy Pop) e Heroe scom novas roupagens eléctricas, e somou-lhe algumas canções de Outside, entre outros apanhados de carreira. “O futebol é o rei do rock’n’roll e para David Bowie estava reservada a marcação de todos os golos”, lia-se na reportagem do Público. A distância e ausência mitificaram uma passagem que, na época, foi bem recebida, embora sem catarse.
“Só David Bowie conseguiu reunir o público e o entusiasmo que, no primeiro dia, assistiu aos Xutos & Pontapés”, resumiu a reportagem do jornal. Ainda esteve previsto um terceiro concerto em Portugal, em 2004, mas um ataque cardíaco durante um concerto na Alemanha afastou-o. E não mais o vimos em palco.
Comments are closed.